A IA escreve o código. Quem responde?
A IA barateou escrever código, não responder por ele. O que você paga num profissional de tecnologia nunca foi a digitação.
Quem está planejando cortar o time de tecnologia porque agora a IA programa está fazendo a conta errada. O que você paga num bom profissional de tecnologia nunca foi a digitação.
O que os dados mostram
Em março de 2025, Dario Amodei, CEO da Anthropic, disse que em três a seis meses a IA estaria escrevendo 90% do código (Business Insider). Depois disso, a própria Anthropic anunciou vagas de engenharia mobile com salário base de US$ 320 mil a US$ 405 mil por ano (vaga). Quem chamou atenção para o contraste foi o desenvolvedor Konstantin Kustau, num post no LinkedIn. A frase dele: o código ficou barato; ser dono do que vai para o celular de milhões de pessoas, não.
Não é só a Anthropic. Segundo dados do Indeed publicados pela CNBC em outubro, as vagas de desenvolvimento de software nos Estados Unidos subiram cerca de 15% desde fevereiro de 2025, enquanto o total de vagas caiu 7% (CNBC). Vagas sênior responderam por 71% desse aumento. A explicação da economista do Indeed, segundo a reportagem: as empresas ainda precisam de desenvolvedores para supervisionar o que a IA produz.
E o relatório DORA 2025, do Google, pesquisa anual sobre engenharia de software, mostra por quê (Google Cloud). 90% dos profissionais já usam IA no trabalho. A IA aumenta a velocidade de entrega. Mas, segundo o relatório, segue associada a mais instabilidade: mais mudança indo para o ar gera mais coisa quebrando. E 30% dos profissionais dizem ter pouca ou nenhuma confiança no código gerado por IA.
O que mudou de lugar
A IA não tirou o trabalho do profissional de tecnologia. Tirou a parte mais visível dele. Escrever código sempre foi o que dava para ver. Decidir o que construir, entender onde aquilo pode quebrar, assumir quando quebra: isso sempre foi o trabalho de verdade. Agora sobrou só isso.
E isso não ficou mais leve. Quanto mais código sai em menos tempo, mais coisa vai para o ar, e mais coisa alguém precisa entender, revisar e sustentar. O DORA resume numa frase: a IA não conserta um time, ela amplifica o que já existe. Time com dono fica mais forte. Time sem dono quebra mais rápido.
O que o dono faz com isso
Para quem contrata, a pergunta mudou. Não é mais quem programa mais rápido. É quem responde pelo que foi entregue. Na entrevista, pergunte o que o candidato fez quando algo que ele entregou deu errado. Na equipe, deixe claro quem é dono de cada sistema, com nome.
Para quem trabalha com tecnologia, o recado é o mesmo, do outro lado da mesa. Se você vende digitação, a IA concorre com você. Se você vende responsabilidade, a IA trabalha para você.
No judô, ninguém ganha luta porque conhece mais golpes. Ganha quem sustenta a pegada quando o outro aperta. Código é golpe. Responsabilidade é pegada.
E uma provocação para quem está montando a planilha de corte: se a IA escreve o código, quem responde quando ele quebrar às 3 da manhã? Se a resposta é ninguém, você não economizou. Só ficou sem dono.
A quem muito foi dado
"A quem muito foi dado, muito será exigido" (Lucas 12
). A IA deu muito a quem escreve código: velocidade, alcance, produtividade. A conta vem junto. Mais poder na mão, mais responsabilidade pelo que sai dela. Quem entende isso não tem medo da ferramenta. Usa, e responde pelo que fez.