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Diploma ainda abre porta pra quem não nasceu rico

Quem tem herança pode dispensar o diploma. Quem não tem precisa dele, e de preferência de uma escola que o mercado reconhece.

Jeferson Guardezi · 4 min de leitura
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Cartão com o título: Diploma ainda abre porta pra quem não nasceu rico

Quem nasceu rico pode se dar ao luxo de dizer que diploma não vale nada. Quem não nasceu, não. Para essa pessoa, o diploma ainda é a escada mais curta, e a escola onde ela estudou pesa na hora em que alguém decide se abre a porta.

O que os números dizem

No Brasil, quem tem ensino superior ganha em média cerca de 148% a mais do que quem parou no ensino médio. A média dos países da OCDE é 54% (OCDE, Education at a Glance 2025). Poucos países pagam tanto pelo diploma quanto o Brasil.

E pouca gente chega lá. Só cerca de 24% dos brasileiros de 25 a 34 anos concluíram a graduação, contra 49% na média da OCDE, e um em cada quatro abandona o curso depois do primeiro ano (CNN Brasil). Quando o diploma é escasso, ele vale mais.

Nos Estados Unidos, a Ramsey Solutions ouviu mais de 10 mil milionários. 79% não receberam herança nenhuma, e 8 em 10 vêm de famílias de renda média ou abaixo. E 88% têm faculdade, contra 38% da população (Ramsey Solutions). A pesquisa é da própria empresa, que vende método de finanças, e não passou por revisão de pares. Mesmo assim, o retrato é claro: a maioria não herdou o patrimônio, e quase todos estudaram.

Infográfico: o que os milionários dos EUA têm em comum. 79% não receberam herança; 88% têm faculdade (população: 38%); 52% fizeram mestrado ou doutorado (população: 13%); 62% estudaram em universidade pública estadual e só 8% em privada de prestígio. Fonte: Ramsey Solutions.
Fonte: Ramsey Solutions, The National Study of Millionaires

O anúncio e a mesa

O discurso de que diploma morreu tem um exemplo favorito: empresas de tecnologia que tiraram a exigência das vagas. O Nubank está nessa lista (Tecnoblog).

Agora olhe quem está lá dentro. Um levantamento feito por Thalison Fernandes com dados públicos do LinkedIn, sobre a graduação de 2.434 funcionários do Nubank, coloca a USP em primeiro, com 186 pessoas, ou 227 somando a Poli, listada à parte. Depois vêm UFMG (70), Unicamp (67) e Mackenzie (54) (LinkedIn). A sede em São Paulo explica parte disso. Mas o topo da lista é de escolas que o mercado conhece pelo nome.

Cartão com a frase: O anúncio da vaga não exige diploma. A mesa de contratação escolhe mesmo assim.
A lição

O anúncio da vaga não exige diploma. A mesa de contratação escolhe mesmo assim. Quando cem pessoas se candidatam, o nome da escola é um atalho para quem precisa decidir rápido.

Estatística engana fácil

Estatística parece fácil de entender, e é por isso que engana. Já circula por aí que a maioria dos milionários americanos é engenheiro. A pesquisa não diz isso: diz que engenharia lidera uma lista de cinco profissões. E 88% com faculdade não prova que a faculdade fez o milionário. Quem entra e termina uma graduação já trazia alguma coisa.

Os economistas Stacy Dale e Alan Krueger fizeram o teste que separa uma coisa da outra. Compararam alunos aprovados nas mesmas faculdades seletivas: uns foram, outros escolheram uma escola menos disputada. Na média, a diferença de renda ao longo da carreira quase sumiu. Mas não para todos. Para filhos de pais com menos estudo, e para alunos negros e hispânicos, a escola continuou pesando muito (Dale e Krueger, NBER). Quem já tem rede ganha pouco com a escola. Quem não tem encontra a rede lá.

No topo, o lugar também pesa. Raj Chetty, David Deming e John Friedman mostraram que estudar numa faculdade de elite, em vez de uma boa universidade pública, aumenta em 60% a chance de chegar ao 1% de maior renda (Opportunity Insights). Mas a escola de nome não é a única porta: entre os milionários da Ramsey, 62% estudaram em universidades públicas estaduais, e só 8% em privadas de prestígio.

O diploma não vale pelo papel. Vale pela dificuldade que você aceita para conquistá-lo: anos de prova que não dá para empurrar, matéria que você não escolheria e precisa vencer, rotina que não depende de vontade. Quem atravessa isso sai maior do que entrou. E quem não nasceu rico vai precisar disso, porque vai ter que empreender, no próprio negócio ou dentro da empresa de outro. Um estudo da Fundação Kauffman com 652 fundadores de empresas de tecnologia nos Estados Unidos encontrou 92% com graduação e idade média de 39 anos ao fundar (Kauffman). O fundador que largou a faculdade aos 19 é a exceção que virou propaganda.

Para quem toca negócio, a lição tem dois lados.

Se você está começando e não tem sobrenome, estude. E escolha onde estudar com o mesmo cuidado com que escolheria um sócio. A escola entra na sala antes de você, no currículo, na indicação, na conversa com quem decide.

Se você contrata, saiba que o filtro existe mesmo quando o anúncio diz que não. Use a escola como sinal, não como sentença. O melhor talento às vezes vem de onde ninguém olha, e quem aprende a enxergar isso contrata melhor que o mercado.

No judô, a faixa não luta por você. Mas ela diz ao adversário, antes da pegada, quanto tempo você passou no tatame. O diploma funciona igual: não substitui a luta, abre o combate.

Perante reis

"Vês um homem perito na sua obra? Perante reis será posto; não será posto perante os de baixa sorte" (Provérbios 22

). A Bíblia não despreza o preparo. Quem se prepara é colocado diante de quem decide.

O estudo é isso para quem não nasceu com a porta aberta. Não é o fim do caminho. É o que coloca você na sala certa.

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